Juiz de Fora ainda se esforça para se recuperar, passados dois meses da tragédia climática que resultou na morte de 66 pessoas. O temporal, considerado histórico, assolou a cidade entre a noite de 23 e a madrugada de 24 de fevereiro, deixando marcas profundas na infraestrutura e na vida dos cidadãos.

Conforme dados da Prefeitura de Juiz de Fora, o município já registrou 8.094 ocorrências desde o evento. Deste total, 6.992 foram prontamente atendidas pela Defesa Civil. Contudo, 1.102 solicitações permanecem pendentes, embora todas já tenham recebido, ao menos, uma tentativa de vistoria. Para comunicar essa tentativa, a Defesa Civil afixa uma notificação em local visível e protegido na residência do proprietário ou locatário. Se necessário, um vizinho é contatado para informar o morador sobre a visita, e o endereço é reinserido na lista de imóveis a serem vistoriados, sem limite de tentativas em função da situação de calamidade.

A lentidão nas vistorias de imóveis tem sido uma das principais reclamações dos moradores nos últimos 60 dias. Em diversas localidades, destroços e entulhos ainda estão espalhados, inviabilizando o retorno das famílias às suas casas e a plena liberação das vias. Atualmente, 48 ruas estão totalmente evacuadas, sem previsão de quando os residentes poderão retornar. Outras sete ruas permanecem interditadas, com a circulação de veículos restrita. A administração municipal, porém, não divulgou o número total de pessoas que ainda se encontram desabrigadas ou desalojadas. A Defesa Civil atua com 92 servidores, com a meta de expandir a equipe para 125. A prefeitura destaca que o volume de vistorias já ultrapassa a estimativa total para mais de oito anos de trabalho em condições normais, esperando alcançar o equivalente a uma década de atendimentos até o final de abril.

Entre as áreas mais afetadas, destaca-se o bairro Paineiras, que ainda apresenta múltiplas interdições abaixo do Morro do Cristo. A região foi palco de uma enxurrada de lama na noite da tragédia, que ceifou seis vidas. Entre as vítimas, um policial penal que tentava resgatar sua esposa e vizinhos, e cinco membros de uma mesma família, incluindo uma criança de 9 anos, que morreram em outro imóvel. Na Zona Norte, a rua Augusto Eckmann, no bairro Jardim Natal, também segue interditada, com um veículo ainda soterrado entre os escombros.

No setor educacional, três escolas continuam com as portas fechadas: Escola Clotilde Peixoto Hargreaves, Escola Municipal Murilo Mendes e Escola Santa Catarina Labouré, com retorno programado para 30 de abril. Outras duas instituições, a Escola Municipal Antônio Faustino e a Escola Municipal Adenilde Petrina, preveem a retomada das atividades nesta quinta-feira (23). O Colégio de Aplicação João XXIII, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), permanece interditado e sem data de liberação. Enquanto as aulas do ensino médio e da Educação de Jovens e Adultos (EJA) foram transferidas temporariamente para o campus da UFJF, a situação dos alunos do ensino fundamental segue indefinida, com a instituição buscando um novo espaço na cidade.

A prefeitura informou que 128 famílias estão hospedadas em hotéis e outras 58 em apartamentos de aluguel custeados pelo município. Quanto aos auxílios, o Auxílio Calamidade Municipal, no valor de R$ 800, beneficiou 1.750 pessoas, seguindo critérios socioeconômicos. As vítimas também contam com o Auxílio Reconstrução, cujo pagamento foi iniciado na semana passada, e o programa Compra Assistida, uma iniciativa do Governo Federal que oferece subsídio para a aquisição de um novo imóvel por aqueles que perderam suas casas definitivamente. Não há, contudo, dados específicos sobre o número de pessoas já contempladas por esses dois últimos programas.