O ex-governador de Minas Gerais e candidato à Presidência da República, Romeu Zema, usou suas redes sociais para prometer o fim das plataformas de apostas online em todo o território nacional. A tentativa de empunhar a bandeira do combate ao jogo, contudo, esbarra de frente no histórico do próprio governo mineiro sob sua gestão, período em que o estado estruturou, credenciou e lucrou ativamente com o avanço do setor.

O epicentro dessa incoerência está na Loteria do Estado de Minas Gerais (LEMG), autarquia pública vinculada à Secretaria de Estado de Fazenda e responsável direta por regular, auditar e fiscalizar os jogos e loterias em solo mineiro. Em vez de restringir a atividade, a gestão Zema utilizou a estrutura da LEMG para licitar e conceder a exploração de apostas de quota fixa e jogos online a consórcios privados, transformando o segmento em uma peça-chave da arrecadação estadual.

O caso mais emblemático desse processo é a plataforma **lotominas.bet**. Operada pelo Consórcio Mineira da Sorte Loteria (MSL), a empresa privada obteve autorização oficial e o selo do governo de Minas Gerais justamente para operar apostas esportivas e modalidades de *iGaming* na internet. Longe de combater o mercado, o Estado chancelou a marca institucionalmente, garantindo legitimidade pública a um produto privado de apostas sob o argumento de destinar repasses a fundos e programas sociais mineiros.

A defesa do setor pela gestão Zema não ficou apenas no plano administrativo: o Executivo mineiro chegou a mover ações no Supremo Tribunal Federal (STF) para blindar a arrecadação da LEMG contra concorrências municipais, sustentando juridicamente a exploração econômica dessas plataformas.

A guinada para um discurso de proibição total ocorre em meio à corrida presidencial, no momento em que as apostas digitais enfrentam forte rejeição popular pelos alarmantes índices de endividamento familiar e dependência psicológica. Ao adotar uma postura moralista contra as *bets* para atrair votos, Romeu Zema tenta apagar o fato de que seu governo não apenas tolerou, mas legitimou e promoveu institucionalmente a indústria de apostas em Minas Gerais.