Fugas Múltiplas Agitam o Sistema Prisional de Minas e Põe Estrutura em Xeque
Duas ocorrências de fugas em unidades prisionais de Minas Gerais, registradas em um intervalo de apenas três dias no final de julho de 2026, resultaram em nove detentos foragidos e reacenderam o debate sobre a precária situação do sistema penitenciário estadual. Enquanto a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp-MG) investiga os detalhes das evasões, representantes da Polícia Penal apontam para problemas crônicos de infraestrutura e gestão.
A primeira evasão ocorreu na madrugada de segunda-feira, 27 de julho, no Centro de Remanejamento do Sistema Prisional (Ceresp) Gameleira, em Belo Horizonte. Sete presos conseguiram escapar após romperem um buraco em uma cela e transporem o muro da unidade. Destes, quatro já foram recapturados, mas Luiz Fernando Freitas Pereira, 20 anos, conhecido como “Bolotinha”; Saymon Patric Gomes Silva, 23 anos, o “LB”; e Bruno Gustavo Gomes da Paixão, 33 anos, permanecem em fuga.
Três dias depois, na quinta-feira, 30 de julho, uma nova fuga foi constatada no Presídio de Passos, localizado no Sul de Minas. Policiais penais identificaram o rompimento do cadeado de uma cela durante uma conferência de rotina, revelando a fuga de seis detentos. Até a última atualização da Sejusp-MG, nenhum dos fugitivos – Diogo Henrique da Cruz Fabiano, Júlio Arnaldo Toledo, Leonardo Willians Silva Pereira, Marcos Túlio Cruz Fabiano, Matheus Loiola Divino e Wagner Santos de Lima – havia sido recapturado.
O vice-presidente do Sindicato dos Policiais Penais de Minas Gerais (Sindppen-MG), Wladimir Dantas, classificou as fugas como reflexo de um sucateamento contínuo do sistema prisional mineiro. Ele destaca a carência de servidores, com apenas cerca de 16 mil policiais penais para 168 unidades, muito abaixo do ideal de 25 mil a 30 mil. Dantas também ressalta a falta de manutenção, especialmente no Ceresp Gameleira, que não teria recebido intervenções estruturais significativas desde que passou a ser administrado pela Polícia Penal em 2004, evidenciando estruturas antigas, rebocos esfarelando e instalações deterioradas. A morosidade dos processos licitatórios é apontada como um entrave para as reformas.
A população carcerária de Minas Gerais, que em 2004 era de aproximadamente 20 mil presos, hoje ultrapassa 80 mil, chegando a picos de 120 mil. Essa expansão não foi acompanhada pelo crescimento da estrutura, tornando o estado a segunda maior malha carcerária do Brasil com um efetivo insuficiente e equipamentos defasados, como coletes balísticos vencidos e armamentos antigos. A sobrecarga de trabalho, segundo Dantas, tem impactado a saúde dos profissionais, com mais de 85% sofrendo de problemas como Síndrome de Burnout, além de perdas salariais significativas.
Em contraponto, a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp-MG) informou que está investigando as fugas e mantém as buscas pelos foragidos, sugerindo que informações podem ser repassadas anonimamente pelo Disque Denúncia 181. A pasta contestou as alegações sobre o Ceresp Gameleira, afirmando que uma reforma na área carcerária em 2024 ampliou a capacidade da unidade em 93,69%, adicionando 386 novas vagas e totalizando 798.
A Sejusp-MG também detalhou esforços para reforçar o efetivo, mencionando a posse de cerca de 3,4 mil policiais penais em 2024 e um concurso público em andamento com 1.178 vagas, que já resultou na contratação de quase 5 mil profissionais nesta gestão. Em relação à infraestrutura, o Governo de Minas está em processo de entrega de aproximadamente 2.700 novas vagas em diversas unidades, incluindo a inauguração do Presídio de Frutal (388 vagas) em novembro de 2025, o de Itaúna (306 vagas) em fase final, e outros em Lavras, Poços de Caldas, Alfenas, Iturama, Ubá, Juiz de Fora, Ipatinga e Ribeirão das Neves, totalizando investimentos superiores a R$ 16 milhões em parceria com a Secretaria de Estado de Infraestrutura, Mobilidade e Parcerias (Seinfra).
As ocorrências recentes reforçam a urgência de uma discussão aprofundada sobre as condições do sistema prisional mineiro, cobrando transparência e investimentos que assegurem tanto a segurança dos servidores quanto da população.
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