O ano de 2019 deixou marcas profundas na história do Cruzeiro, e as complexas operações corporativas e jurídicas daquele período continuam a vir à tona, revelando os mecanismos que abalaram as estruturas do clube. Um dos pontos centrais dessa análise é o contrato de patrocínio máster firmado com o Banco Digimais, então propriedade de Edir Macedo e conhecido anteriormente como Banco Renner. A marca Digimais teve grande exposição na camisa celeste justamente durante o rebaixamento da equipe.

A antiga diretoria, à frente Wagner Pires de Sá e Itair Machado, divulgou o acordo como uma parceria inovadora, prometendo um "banco digital próprio para o torcedor". Contudo, essa parceria ocultava riscos de mercado significativos, os quais mais tarde se tornaram objeto de minuciosas auditorias. O contrato diferia dos modelos tradicionais de patrocínio, que asseguram valores fixos ao clube.

Diferente dos formatos convencionais que garantem verbas fixas para o caixa, o contrato com o Digimais condicionava a maior parte dos repasses ao êxito na conversão de torcedores em correntistas. A receita do clube ficava, portanto, diretamente atrelada ao volume de usuários ativos na plataforma digital. Para conseguir um efeito imediato na mídia, a administração da época ainda negociou adiantamentos de cotas. Tais valores, contudo, funcionavam como antecipações de receitas futuras, acarretando juros, obrigações jurídicas rígidas e comprometendo o faturamento dos anos seguintes, o que dificultou a gestão do fluxo de caixa rotineiro na Toca.

Toda essa complexa estrutura contratual precisou ser detalhadamente analisada e renegociada quando o Cruzeiro foi transformado em Sociedade Anônima do Futebol (SAF). A regularização das pendências financeiras e dos processos decorrentes de parcerias como a com o Digimais foi um passo essencial para resgatar a credibilidade institucional da agremiação no concorrido mercado do futebol.