Em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, a professora Vânia de Souza Borges transformou a dor da perda de seu filho, Rafael Borges Amaral, de 26 anos, em uma intensa mobilização. Ela busca responsabilizar plataformas de apostas online e influenciadores que promovem conteúdo de jogos de azar. Vânia está convencida de que Rafael desenvolveu dependência em bets, o que a levou a reunir provas, acionar órgãos de fiscalização e exigir mudanças nas regulamentações do setor, visando prevenir que outras famílias enfrentem tragédias similares. Segundo Vânia, mesmo após o falecimento do filho, as notificações e publicidades de apostas continuavam a chegar, simbolizando para ela a dependência que, em suas palavras, consumiu Rafael até seus últimos dias.

Rafael faleceu em 23 de março de 2024, aos 26 anos, com o boletim de ocorrência registrando a causa como suicídio. Contudo, a mãe insiste que a dependência em apostas teve um papel crucial no desfecho. O caso de Rafael, morador de Uberlândia, ganhou visibilidade nacional neste mês, após uma reportagem da agência Pública revelar uma carta escrita por Vânia e anexada à documentação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Bets no Senado. No texto, a mãe descrevia a dependência do filho em apostas online e atribuía o agravamento de sua condição ao vício. O material foi incluído na análise da comissão, cujo relatório final, elaborado pela senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS), propôs o indiciamento de influenciadores e empresários do setor, embora a proposta tenha sido rejeitada. A repercussão da carta e os desdobramentos do caso impulsionaram um novo pedido de investigação.

Antes do envolvimento com apostas online, Rafael mantinha uma rotina de trabalho dedicada, acordando às 5h para atuar em um lava a jato e retornando para casa somente à noite. "Eu não sei dizer exatamente quando as apostas entraram na vida dele. No começo, ele dizia que estava ganhando dinheiro. Mesmo assim, nós o aconselhávamos a parar, mas ele não conseguia. Com o tempo, ele passou a perder tudo o que conquistava", relatou Vânia. Ela descreve que as noites de descanso do filho foram substituídas por horas de apostas no celular. "Ele trabalhava muito. Acordava às 5h da manhã e, às vezes, só chegava em casa à noite. Só que, quando chegava, continuava jogando. Quando eu via aquilo, ficava muito preocupada. Eu aconselhava, implorava para ele parar, dizia que era golpe, mas ele insistia em continuar. Parecia estar cego pelo vício", afirmou a professora.

A dependência, conforme a mãe, impactou significativamente o trabalho, a renda e as relações pessoais de Rafael. Conhecido por sua responsabilidade, o jovem começou a faltar ao serviço com frequência, levando ao encerramento de seu contrato no lava a jato. Mesmo após conseguir outro emprego, com jornadas de até 16 horas diárias, parte de seu salário era destinada às apostas. "O dinheiro dele a gente não via. Eu imaginava que estava indo para o jogo. Ele deixou de comprar roupas, de cuidar dele mesmo, de realizar os próprios sonhos", lamentou Vânia. Ela enfatiza que o vício não apenas dissipou o patrimônio de Rafael, como também o isolou de pessoas queridas. Em um áudio enviado a um amigo, Rafael desabafou sobre as perdas, dizendo que "tinha perdido tudo. Que tinha perdido os amigos, a mãe, as irmãs. O vício fez ele acreditar que estava sozinho." Pouco antes de sua morte, Rafael chegou a vender uma motocicleta seminova avaliada em R$ 8 mil e manteve a gravidade de sua dependência em segredo da família. Em outro áudio a um amigo, confessou que já não conseguia controlar o vício e relatava perdas financeiras. Vânia descobriu posteriormente que, na madrugada do dia do falecimento, Rafael realizou transferências para plataformas de apostas, incluindo uma de R$ 30 para uma conta ligada ao "Jogo do Tigrinho" às 1h48, conforme informações obtidas em um banco digital. A família não conseguiu acessar os extratos completos das contas de Rafael, alegando as instituições financeiras sigilo bancário, o que impede o cálculo do valor total perdido.

Vânia iniciou sua busca por responsabilização na Promotoria Criminal de Uberlândia, mas o promotor responsável considerou que a questão não possuía natureza criminal, encaminhando-a às promotorias de Defesa do Consumidor e da Saúde. Em maio de 2025, o Ministério Público de Minas Gerais determinou o arquivamento da investigação. Uma solicitação de inquérito à Polícia Civil de Minas Gerais também foi feita, com a família recebendo a informação de que "nada podia ser feito". Para a família, o caso transcende uma tragédia individual, revelando um problema de saúde pública. "Quando soube que não haveria investigação, fiquei extremamente frustrada. Disseram que foi um suicídio e que ninguém o induziu. Mas eu não me dei por vencida. Quero respostas e acredito que quem lucra incentivando pessoas vulneráveis também precisa ser responsabilizado", declarou Vânia. Até o momento, não há apuração oficial que vincule diretamente a atividade de apostas à morte de Rafael. Vânia prossegue na busca por responsabilização, principalmente nas esferas administrativa e política, cobrando uma reavaliação do caso pelo Ministério Público e apoiando iniciativas no Congresso Nacional para uma regulamentação mais rígida das plataformas de apostas online. Até a última atualização desta reportagem, as autoridades não haviam respondido aos questionamentos sobre os fundamentos do arquivamento da denúncia e a possibilidade de reavaliação do caso.

Em resposta aos desdobramentos, a deputada federal Dandara (PT-MG) protocolou uma representação no Ministério da Justiça e Segurança Pública, solicitando que a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) e o Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor investiguem possíveis práticas de publicidade enganosa, estratégias digitais predatórias e falhas na proteção de usuários por parte das plataformas de apostas. O processo segue em análise. Além disso, Dandara apresentou dois projetos de lei, apelidados de "PLs Rafael", relacionados ao mercado de apostas. Um deles propõe proibir que influenciadores e afiliados sejam remunerados com base nas perdas financeiras dos apostadores que atraem, permitindo apenas valores fixos por campanha, sem vínculo com depósitos, apostas ou prejuízos dos usuários. O segundo projeto visa obrigar as plataformas de apostas a monitorar o comportamento dos usuários para identificar sinais de compulsão. Caso sejam detectados indícios de dependência, as empresas deverão notificar a Secretaria de Prêmios e Apostas, que poderá determinar o bloqueio temporário da conta por, no mínimo, 60 dias. Durante esse período, o apostador não receberia publicidade ou bônus de incentivo e seria orientado sobre canais de apoio psicológico. Ambos os projetos aguardam o início da tramitação na Câmara dos Deputados. No Brasil, as apostas de quota fixa, ou bets, são permitidas desde que as empresas obtenham autorização do governo federal e sigam as normas do setor, que passaram a exigir, em julho, alertas sobre os riscos das apostas e restringiram propagandas que associem o jogo ao sucesso financeiro.